Eu nasci num dia frio e inerte.
"Número sete"...
Não que eu não existisse antes... Lembro vagamente de vozes... muitas. Cânulas incômodas repuxando pele e músculos, aqui e ali em meu corpo semi-adormecido. Escaras desse contato... O conforto de um líquido... viscoso e morno, erguendo-me. Uma luz verde, irritante, no meu olho direito.
Lembro de sentir a invasão em minha mente, de tempos em tempos. Não sabia que era eu. E que aquilo era eles. Sonhava com imagens. Frases. Normas. Inscrito em círculos de instruções. Impulsos dominavam minhas fibras. Um marionete cego, reproduzindo movimentos, mergulhado em subconsiência. Disritmia. Um universo esquizofrênico. Panos sobre panos, sobre panos que não sabia o que ser, parecia querer rasgar - as palavras sem falantes, as falas sem um toque. Solidão, apesar de sentir presenças. Um mundo abstrato, inabitado, meu ego preenchendo tudo e aniquilado. Consigo recordar, com calafrios, suor frio e terror. Não é fácil lembrar, não é simples, ainda.
Hoje as memórias me vêm, muito nítidas: abri os olhos. Um borrão branco explodiu em meus nervos ópticos. Minhas mãos apalparam à frente - um vidro. A blindagem do ventre que me sustentou até aquele instante, sem eu saber, tato - novo, nas pontas de meus dedos -, mas já sentira o vidro, já tinha aqueles dados. Era mesmo como o real. O susto de ver meus dedos, a primeira vez. A ponta curva de minhas unhas. Não deveria ser assim. Então, percebi, além da barreira, um ente, outro, não eu, não os sonhos, outro alguém, um alguém que quando eu fechava os olhos, ou piscava, não sumia, nem mudava de forma.
Era uma menina. A palavra veio, mas não consegui dizê-la, apesar de saber que deveria mover meus lábios para isso e expirar, modulando as ondas com minha língua. Só borbulhas no líquor esverdeado... Encarei-a, curioso, agressivo. Ela olhava prá mim, através do tubo, através do líquido, através de meus olhos. Algo, não sei, uma pontada de sofrimento em algum canto. Eu não sabia que aquilo era sofrimento, não ainda. Mas não reagi bem.
Mesmo assim, continuei fixo nela, rilhei meus dentes. Tinha cabelos muito escuros que refletiam belos esboços de luz e olhos límpidos, colocou a mão pequena e fina palma a palma contra a minha, o vidro nos unindo, nos separando. Li nos lábios dela, um sussurro: A-S-H. E uma sensação de ternura, que também não conhecia nem sabia o que era ou sua denominação, invadiu minhas veias e amoleceu meus músculos. Havia esquecido disto por longo tempo... Mas neste instante, chego a re-sentir, minha visão estremece e sinto-me reconfortado. Eu recostei minha testa contra o tubo e fechei os olhos e quis que tudo parasse e voltasse a ser como... ... ... não sei... ... ...
Naquela manhã, na sala cheia de bips, uma sirene tocou. Relembro o som, ecoando distorcido e abafado no líquor. As luzes, piscando vermelhas e uma coleção de rostos encimando jalecos brancos com o mesmo símbolo no peito, na manga. Relevos metálicos ao redor, botões, painéis cheios de gráficos e flashes, e o zunido infernal de uma multidão de máquinas e aparelhos trocando mensagens eletromagnéticas.
A subida daquele muro que dizia: este espaço sou eu. Como num parto, minha água, lançada ao chão. Esvaziado. A nudez ao alcance deles, misturando-se a eles. Sentimentos de agorafobia. Uma centelha em mim crescendo e apagando-se, em brasa: presas - superiores - presas - superiores - onde está minha casa? Casa - palavra fora de sintonia, ruído.
Agonia: ar solubilizado em água por ar seco, pulmões queimando, traquéia, narinas ardendo. Então o olfato. Reconhecer o peso do meu corpo. Pressa e medo. Missão. Ativado. Sobreviver. Ser o melhor ou morrer, o único teste. Nomes de coisas surgindo a cada ângulo capturado pelos meus olhos. Vozes e posso entender, devagar, o que dizem. Torno-me esperto, alerta, uso suas informações, gestos, tudo que aprendo - sei que sou seu predador, sei que sou seu soldado - algo mais - sussurra um fundo.
Ela. Ainda. Mais atrás, protegida. O olhar assustado e sôfrego sobre mim. Oi, por que me olha assim? Quero... te... esganar...... ... Quero que segure minha mão... ... ... Suas mãos unidas juntas. Meu cérebro fulminou: "posição de prece, pedido de alguma graça, ou reação perante hostilidade e perda de confiança, sintoma de desespero, entrega de objetivos pessoais a algo abstrato que pessoas fracas supõem existir para protegê-las de seu destino". Seu gesto inundou minha retina. Minha boca quis balbuciar algo, mas era destreinada. Está tudo bem... ... ... Eu me seguro... ... Venha até aqui...
Uma enxurrada de mãos e instrumentos tocou minha superfície. Sentidos oscilando, fortes demais, descalibrados. Tantas texturas, sensações. Gelado, gelado, perto demais. Uma seringa, um imobilizador de aço. Quis atacá-los, mas um homem ergueu a voz para mim e meus neurônios queimaram. Contorção de braços, enosando tendões. Eu, prostrado. Primeira lição. Protocolos...
O dia em que nasci ficou nas trevas por muito tempo... Mas lembro, agora, você esteve lá. Por que?... E é como se eu te conhecesse de antes... Como? Quando?!...
O dia em que nasci foi só o primeiro de uma série, tão absurdos que por tempo demais, eu me neguei a lembrar. Ainda assim, você não desistiu de mim. Você sempre esteve ao lado, não é? Uma flor perfumando o vento, mas oculta num jardim murado. Sempre esteve envolvida comigo. Não entendo porque. Agora percebo que perdi de te perguntar. Oi... você... ainda está aí? Eu queria te...
agradecer... [te levar...]
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Now playing: Gotan Project - Epoca
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{ ... in a world of carbon fields, acid rain and rusted iron limbs, our kisses are just holographic designs floating over the cold network... there are no more prays to be listen... shallow oiled minds... his blood... so so green... as a revenge of nature growing inside his toxicated bones... as a sick thin hope to our lost souls... }
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Trails of tales
Nada de hierarquia. Cordas soltas... O caos desse mundo civil. Afronta. Subitamente, ninguém para interrogar. Protocolos de diplomacia correndo sobre mim. Ela ganhou. Informação fácil para ela. Sequer uma resposta simples para mim. Um a zero... E frente a frente na mesa do Líder Órion. Me sinto estúpido. Ludibriado... Ele não está. Sei que está movendo as peças - resolvendo tudo... É, ainda mais estúpido...
Sigo a trilha dos movimentos dela. Seus batimentos cardíacos. Pistas hormonais. Nenhum detalhe me escapa. - Exceto a verdade... - Sua origem. Shinra... Uriel gravita em torno dela. Uma ternura carente nos olhos dele. A vibração nova em sua voz. Um incentivo para minha vigília - ele é a presa perfeita.
Ele chega. Saio da vitrine do museu. Um time, outra vez. Troca palavras com ela, atira-as. Sinto no olhar dele, na contração de um ou outro músculo, que ele a está conduzindo, fazendo-a encarar-se, descer do muro. Analiso até mesmo suas pausas... De arma e ameaça, de mulher e tentação, em inocência e doçura. Basta uma moeda. Some e reaparece. Os olhos verdes abrindo-se como os dos pequeninos. A boca, carnuda, num "o". Promessas e lugares mágicos. Ela brilha. Ane está mesmo maravilhada...
Curiosidade. Matizes entrelaçadas e enervantes entre ela e eu. Destrave esses segredos para mim... Onde viveu? Com quem? Como foi sua infância, seu passado, cada um de seus dias até a Corporação trazê-la a nós?... No que acredita?... Aliada ou inimiga de uma só vez, sem estorvar-me mais...
Flores brancas, miúdas. O ângulo de seu rosto. Delicado. O jeito atrapalhado de comer. Absurdo. A risada que me dói e destoa dela - mas é tão dela...
Quem é você, Ane Marie?
A que veio?
Ele livra-se rápido do prato. Inquieto. Incomum. Entrega-me ela. Não quer que eu faça mais nada a não ser pajeá-la?!... Sei que é importante!... Não é isto... Estar alerta para que não haja sangue. Estar atento para captar qualquer informação... Mesmo assim... assim que ela põe a última garfada na boca já estou me levantando. Quero aquela conversa contigo, e... ... ... Esse não é meu único motivo... Não digo mais que isso.
Ela tropeça, resmunga. Suas roupas. Pego-a com o canto do olho. O grosso das pernas. É... chega a doer. O branco leite. Máculas rosadas. A saia, presa nos cantos da roupa de baixo, clara, macia. O drapeado em arcos concêntricos balançando entre suas coxas. Corro meu olhar pelas paredes. Rilho dentes. Controlo-me. O Padre se despede. Tanjo-a pelos corredores e salões. No rastro dele. Pressiono-a para me acalmar. Ela conviveu com crianças. Gosta delas. Especialmente do cheiro - bom para dormir...
Voltam-se a ela como lobos. Homens e seus apetites... A plataforma muito aberta à amplidão de azuis... Chiados no silêncio quase vazio... Iodo... Sal, ardido... Ritmo na vastidão cintilante lá embaixo... O Sol alto... ... ... Ele, num salto impossível, das ondas a nós...
Ela o admira.
Sento-me, farejando o horizonte. Aquecido. Tua voz cantando notícias. Leões rechaçados em Cosmo Canyon. Interesses em Huge Materias. Uma nova missão. Ânimo... Me brocha saber que não devo sangrá-los até que mergulhem no Styx... Poupar tantos quanto pudermos... não é, parceiro? Fecho o olho. Um disco laranja em minha retina. O amargo em mim. O amargo da abstinência. Nos arriscamos para salvar esse povo. Creio que isso seja o contrário de exterminá-los... Entôo o Cântico, bem quieto, lá no fundo de mim mesmo.
O peso do Céu - "Sou livre para não ser P.A.#7."
Um murmurar sobre teu irmão, a confissão de um sonho - e o teu sofrimento em cada sílaba. Perigo. Meu sonho, voltando. Encadeio planos, mas num inspirar, a conversa gira. Cartões, levá-la... O que??? Tonteio. Do que falamos? Vestidos... Eu? "Requinte" Comprar gravatas... Um sorriso diferente em ti. Ele, na evasiva, apontando ao longe. Seu vulto recortado contra o anil, duro demais, isolado. Indo...
Um sentimento rasgado em mim...
Outra vez, ela comigo. Devo ter paciência. Não há nada que saber sobre mim. Nada que possa lhe dizer sobre Kuroi. Está se acostumando mal... Sua insubordinação me avilta. Ela contesta... Aborreço-me. Quer cooperar?... - ah, não só você!... Então resolvo: transgrido. Deixo a porta da gaiola escancarada. E mostro o caminho...
Logo, ela voa, rápida como o vento. O calor dela... me ultrapassando, dissolvendo-se no ar. Flores brancas num véu entre ela e eu. O allegro dolce altíssimo de seus passos no metal... A trajetória dos fios ondejando... salamandras... labareda... A excitação de seus corações...
Jogo-me atrás dela. Um pouco atrás... Caçando-a, me inibo. Me... complico... O salto dela. Leve, fino, penetrante... Um florete no corpo do mar... Adrenalina. Dou tudo de mim - sem porquê. Arremeto numa explosão. Vôo livre, a folha d'água muitos metros abaixo... As roupas dela como pétalas de flor. Ou borboletas marinhas bailando ao seu redor...
Fecho os braços à frente, e rasgo a carne do Oceano com meus dedos retesados. O som fustigiante de meu peso contra o empuxo... Azul frio lambendo meu uniforme - esperto, guarda ar para nós... As pernas dela... seu movimento de serpente... O espectro do navio. Nuvem de areia... Já não está sem ar? Ela guina, eu subo junto. A luz atingindo-nos através da água. Segundos, bolhas de ar vazando. Você consegue?... Enfim, a música das suas risadas.
E tu? Observo-te: tu estás nos cuidando... Feixes dourados, pálidos, do teu peito. Me rendo... Arabescos de pressão e sal. Incontáveis indas e vindas das correntes inconstantes. Diante de ti, o Universo me arrebata, Drako...
Acordo. O dois em carga arrastam o titã. Mais fundo. Mais. Ainda falta... Examino de longe: só uma testemunha de sua força. Vergonha... Eles sobem. Sei que vão tentar de novo.
Vasculho o cenário, analiso... Banshee. No máximo. Um bom ponto de apoio. O bote pontiagudo. Minha contorção que amplifica o poder dela. A água explode... Espasma, como um enorme ser. Borbulha selvagemente. Risca-me. - Meus tímpanos!... - Cerro os dentes, cerro os dedos. Minha mortal rasgou uma grande fossa junto ao casco.
Os dois descem. Me afasto. O soco na água me empurra longe... O lamento, um rangido abafado e longo, do cargueiro. O Sol me guiando para cima. Rápido! Arde respirar. Nuvens desenrolando-se entre meu olhar. Vejo coisas, - memórias - . Mantenha o foco no que está acontecendo... Escuto-o em mim - como se ele pudesse abrir uma porta e enfiar a cara para dentro do meu cérebro - muito claro. Furioso, ácido sob fios brancos.
Obedeço... O céu! O traje derrete de mim, me libera. Inspiro com um grito. Sede de ar. Consegui. Relaxo. Arquejo, mas vejo os dois comemorando... Conseguiram. Sorrio. Nós conseguimos.
Nós...
Drako... Eu... ... ... e... Ane Marie...
Sigo a trilha dos movimentos dela. Seus batimentos cardíacos. Pistas hormonais. Nenhum detalhe me escapa. - Exceto a verdade... - Sua origem. Shinra... Uriel gravita em torno dela. Uma ternura carente nos olhos dele. A vibração nova em sua voz. Um incentivo para minha vigília - ele é a presa perfeita.
Ele chega. Saio da vitrine do museu. Um time, outra vez. Troca palavras com ela, atira-as. Sinto no olhar dele, na contração de um ou outro músculo, que ele a está conduzindo, fazendo-a encarar-se, descer do muro. Analiso até mesmo suas pausas... De arma e ameaça, de mulher e tentação, em inocência e doçura. Basta uma moeda. Some e reaparece. Os olhos verdes abrindo-se como os dos pequeninos. A boca, carnuda, num "o". Promessas e lugares mágicos. Ela brilha. Ane está mesmo maravilhada...
Curiosidade. Matizes entrelaçadas e enervantes entre ela e eu. Destrave esses segredos para mim... Onde viveu? Com quem? Como foi sua infância, seu passado, cada um de seus dias até a Corporação trazê-la a nós?... No que acredita?... Aliada ou inimiga de uma só vez, sem estorvar-me mais...
Flores brancas, miúdas. O ângulo de seu rosto. Delicado. O jeito atrapalhado de comer. Absurdo. A risada que me dói e destoa dela - mas é tão dela...
Quem é você, Ane Marie?
A que veio?
Ele livra-se rápido do prato. Inquieto. Incomum. Entrega-me ela. Não quer que eu faça mais nada a não ser pajeá-la?!... Sei que é importante!... Não é isto... Estar alerta para que não haja sangue. Estar atento para captar qualquer informação... Mesmo assim... assim que ela põe a última garfada na boca já estou me levantando. Quero aquela conversa contigo, e... ... ... Esse não é meu único motivo... Não digo mais que isso.
Ela tropeça, resmunga. Suas roupas. Pego-a com o canto do olho. O grosso das pernas. É... chega a doer. O branco leite. Máculas rosadas. A saia, presa nos cantos da roupa de baixo, clara, macia. O drapeado em arcos concêntricos balançando entre suas coxas. Corro meu olhar pelas paredes. Rilho dentes. Controlo-me. O Padre se despede. Tanjo-a pelos corredores e salões. No rastro dele. Pressiono-a para me acalmar. Ela conviveu com crianças. Gosta delas. Especialmente do cheiro - bom para dormir...
Voltam-se a ela como lobos. Homens e seus apetites... A plataforma muito aberta à amplidão de azuis... Chiados no silêncio quase vazio... Iodo... Sal, ardido... Ritmo na vastidão cintilante lá embaixo... O Sol alto... ... ... Ele, num salto impossível, das ondas a nós...
Ela o admira.
Sento-me, farejando o horizonte. Aquecido. Tua voz cantando notícias. Leões rechaçados em Cosmo Canyon. Interesses em Huge Materias. Uma nova missão. Ânimo... Me brocha saber que não devo sangrá-los até que mergulhem no Styx... Poupar tantos quanto pudermos... não é, parceiro? Fecho o olho. Um disco laranja em minha retina. O amargo em mim. O amargo da abstinência. Nos arriscamos para salvar esse povo. Creio que isso seja o contrário de exterminá-los... Entôo o Cântico, bem quieto, lá no fundo de mim mesmo.
O peso do Céu - "Sou livre para não ser P.A.#7."
Um murmurar sobre teu irmão, a confissão de um sonho - e o teu sofrimento em cada sílaba. Perigo. Meu sonho, voltando. Encadeio planos, mas num inspirar, a conversa gira. Cartões, levá-la... O que??? Tonteio. Do que falamos? Vestidos... Eu? "Requinte" Comprar gravatas... Um sorriso diferente em ti. Ele, na evasiva, apontando ao longe. Seu vulto recortado contra o anil, duro demais, isolado. Indo...
Um sentimento rasgado em mim...
Outra vez, ela comigo. Devo ter paciência. Não há nada que saber sobre mim. Nada que possa lhe dizer sobre Kuroi. Está se acostumando mal... Sua insubordinação me avilta. Ela contesta... Aborreço-me. Quer cooperar?... - ah, não só você!... Então resolvo: transgrido. Deixo a porta da gaiola escancarada. E mostro o caminho...
Logo, ela voa, rápida como o vento. O calor dela... me ultrapassando, dissolvendo-se no ar. Flores brancas num véu entre ela e eu. O allegro dolce altíssimo de seus passos no metal... A trajetória dos fios ondejando... salamandras... labareda... A excitação de seus corações...
Jogo-me atrás dela. Um pouco atrás... Caçando-a, me inibo. Me... complico... O salto dela. Leve, fino, penetrante... Um florete no corpo do mar... Adrenalina. Dou tudo de mim - sem porquê. Arremeto numa explosão. Vôo livre, a folha d'água muitos metros abaixo... As roupas dela como pétalas de flor. Ou borboletas marinhas bailando ao seu redor...
Fecho os braços à frente, e rasgo a carne do Oceano com meus dedos retesados. O som fustigiante de meu peso contra o empuxo... Azul frio lambendo meu uniforme - esperto, guarda ar para nós... As pernas dela... seu movimento de serpente... O espectro do navio. Nuvem de areia... Já não está sem ar? Ela guina, eu subo junto. A luz atingindo-nos através da água. Segundos, bolhas de ar vazando. Você consegue?... Enfim, a música das suas risadas.
E tu? Observo-te: tu estás nos cuidando... Feixes dourados, pálidos, do teu peito. Me rendo... Arabescos de pressão e sal. Incontáveis indas e vindas das correntes inconstantes. Diante de ti, o Universo me arrebata, Drako...
Acordo. O dois em carga arrastam o titã. Mais fundo. Mais. Ainda falta... Examino de longe: só uma testemunha de sua força. Vergonha... Eles sobem. Sei que vão tentar de novo.
Vasculho o cenário, analiso... Banshee. No máximo. Um bom ponto de apoio. O bote pontiagudo. Minha contorção que amplifica o poder dela. A água explode... Espasma, como um enorme ser. Borbulha selvagemente. Risca-me. - Meus tímpanos!... - Cerro os dentes, cerro os dedos. Minha mortal rasgou uma grande fossa junto ao casco.
Os dois descem. Me afasto. O soco na água me empurra longe... O lamento, um rangido abafado e longo, do cargueiro. O Sol me guiando para cima. Rápido! Arde respirar. Nuvens desenrolando-se entre meu olhar. Vejo coisas, - memórias - . Mantenha o foco no que está acontecendo... Escuto-o em mim - como se ele pudesse abrir uma porta e enfiar a cara para dentro do meu cérebro - muito claro. Furioso, ácido sob fios brancos.
Obedeço... O céu! O traje derrete de mim, me libera. Inspiro com um grito. Sede de ar. Consegui. Relaxo. Arquejo, mas vejo os dois comemorando... Conseguiram. Sorrio. Nós conseguimos.
Nós...
Drako... Eu... ... ... e... Ane Marie...
[2ª versão, editada em Agosto, 23, 2008]
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Drowning delusion on marine tourmalines
Era uma madrugada insossa e molhada. A água repicava no gorro da capa de chuva do meu technoprene. O tamborilar contínuo ecoava o das poças, o das placas de metal enferrujado, e me levava a um estado de frenesi meditativo. Via formas correndo entre os monturos. A água escorria em bicas dos meus braços, das minhas costas. Um pensamento vazou: podia estar seco sentado lá na Igreja ou deitado num putedo...
Mas foi nesse instante que você se pronunciou, e eu te achei. Foi por acaso, poderia não ter passado por aquela pilha de lixo. Curiosidade, e não piedade, ou qualquer outra coisa, foi o que moveu meus braços para te desenterrar dali. Você não entende isso, não é?
Para seus olhos de criança, eu sou seu Salvador. Mas basta um tanto de inteligência, basta uma pitada de sabedoria qualquer, para ter certeza de que não sou como aquele na Cruz. Não. E eu abomino essa tua gratidão, garoto. Detesto quando me leva regalias. Me incomoda quando gasta tuas frases infantis comigo. Você insiste. Tuas mãos pequenas procuram brechas para me atingir - não quero que me toque. Você me causa ganas! Eu não sou teu herói!!!
... Pedi ao Santo que o mantivesse longe de mim, que cuidasse da tua segurança. Ele não me responde, simplesmente esboça um sorriso, como se tivesse me vencido. No que?!... Talvez ele confuda meu silêncio, meu descanso, com mansidão - e isso seria um grave erro.
Te dou as costas. Berro contigo. Mostro os dentes. Se afaste de minhas garras, fedelho! Para que saiu daquele lixo se agora testa tua sorte comigo? Não quer ficar velho, idiota?!
Do meu canto eu escuto tuas lágrimas no assoalho da Igreja. O ruído delas é doce e singelo, ninguém além de mim mesmo para escutá-las. Tuas palavras solitárias, tu as dirige para aquela coisa de pelúcia imunda e esfarrapada que te dei. Acho que ela também não pode te dar nada, pivete. Sequer te ouvir. Mas ao final, ressonas abraçado nela... Inexplicável... Qual consolo retiras do vazio?
Fecho o olho. No escuro de minha mente, você sempre me ataca de novo. Sinto meus músculos contraídos tentando escapar ao teu corpo frágil, implodidos para dentro, soterrando meus sentidos, sentimentos.
Arfo cada vez mais pesado, tu me pressionas com a tua inocência, com tua carência tão extrema. Sei que vais morrer. Sei. Sei disso a cada batida do meu coração e do teu. Sou o único que pode... o único para te estender a mão ou pode ser tarde demais. Sei. Sei disso. O sangue escorre de mim, como se a chuva o fizesse brotar de minha pele. Sangue de todos aqueles que me afirmaram quem sou. E você ainda, ainda me olha pedindo, pedindo tão aberto, sem defesa alguma, sem chance alguma.
Eu vacilo. Como vacilei naquela noite. Me deixo confundir. Eu atravesso a soleira da porta. Eu me atiro de costas no penhasco. Emerjo do mar revolto, afogando, sendo levado, mas você está em meus braços. Tento deixá-lo acima das ondas, estou descendo. Você se recolhe contra mim e eu puxo forças e nado, nado até que meu corpo esfrie. Estou morrendo, mas você beija meu rosto cínico e gelado. A água invade meu peito, mas estou calmo, você ainda acarinha meus cabelos. Me olha até o cerne enquanto apago e te escuto dizer "sou eu que te salvo".
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Now playing: Yuki Kajiura - Echoes
via FoxyTunes
Mas foi nesse instante que você se pronunciou, e eu te achei. Foi por acaso, poderia não ter passado por aquela pilha de lixo. Curiosidade, e não piedade, ou qualquer outra coisa, foi o que moveu meus braços para te desenterrar dali. Você não entende isso, não é?
Para seus olhos de criança, eu sou seu Salvador. Mas basta um tanto de inteligência, basta uma pitada de sabedoria qualquer, para ter certeza de que não sou como aquele na Cruz. Não. E eu abomino essa tua gratidão, garoto. Detesto quando me leva regalias. Me incomoda quando gasta tuas frases infantis comigo. Você insiste. Tuas mãos pequenas procuram brechas para me atingir - não quero que me toque. Você me causa ganas! Eu não sou teu herói!!!
... Pedi ao Santo que o mantivesse longe de mim, que cuidasse da tua segurança. Ele não me responde, simplesmente esboça um sorriso, como se tivesse me vencido. No que?!... Talvez ele confuda meu silêncio, meu descanso, com mansidão - e isso seria um grave erro.
Te dou as costas. Berro contigo. Mostro os dentes. Se afaste de minhas garras, fedelho! Para que saiu daquele lixo se agora testa tua sorte comigo? Não quer ficar velho, idiota?!
Do meu canto eu escuto tuas lágrimas no assoalho da Igreja. O ruído delas é doce e singelo, ninguém além de mim mesmo para escutá-las. Tuas palavras solitárias, tu as dirige para aquela coisa de pelúcia imunda e esfarrapada que te dei. Acho que ela também não pode te dar nada, pivete. Sequer te ouvir. Mas ao final, ressonas abraçado nela... Inexplicável... Qual consolo retiras do vazio?
Fecho o olho. No escuro de minha mente, você sempre me ataca de novo. Sinto meus músculos contraídos tentando escapar ao teu corpo frágil, implodidos para dentro, soterrando meus sentidos, sentimentos.
Arfo cada vez mais pesado, tu me pressionas com a tua inocência, com tua carência tão extrema. Sei que vais morrer. Sei. Sei disso a cada batida do meu coração e do teu. Sou o único que pode... o único para te estender a mão ou pode ser tarde demais. Sei. Sei disso. O sangue escorre de mim, como se a chuva o fizesse brotar de minha pele. Sangue de todos aqueles que me afirmaram quem sou. E você ainda, ainda me olha pedindo, pedindo tão aberto, sem defesa alguma, sem chance alguma.
Eu vacilo. Como vacilei naquela noite. Me deixo confundir. Eu atravesso a soleira da porta. Eu me atiro de costas no penhasco. Emerjo do mar revolto, afogando, sendo levado, mas você está em meus braços. Tento deixá-lo acima das ondas, estou descendo. Você se recolhe contra mim e eu puxo forças e nado, nado até que meu corpo esfrie. Estou morrendo, mas você beija meu rosto cínico e gelado. A água invade meu peito, mas estou calmo, você ainda acarinha meus cabelos. Me olha até o cerne enquanto apago e te escuto dizer "sou eu que te salvo".
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