Eu nasci num dia frio e inerte.
"Número sete"...
Não que eu não existisse antes... Lembro vagamente de vozes... muitas. Cânulas incômodas repuxando pele e músculos, aqui e ali em meu corpo semi-adormecido. Escaras desse contato... O conforto de um líquido... viscoso e morno, erguendo-me. Uma luz verde, irritante, no meu olho direito.
Lembro de sentir a invasão em minha mente, de tempos em tempos. Não sabia que era eu. E que aquilo era eles. Sonhava com imagens. Frases. Normas. Inscrito em círculos de instruções. Impulsos dominavam minhas fibras. Um marionete cego, reproduzindo movimentos, mergulhado em subconsiência. Disritmia. Um universo esquizofrênico. Panos sobre panos, sobre panos que não sabia o que ser, parecia querer rasgar - as palavras sem falantes, as falas sem um toque. Solidão, apesar de sentir presenças. Um mundo abstrato, inabitado, meu ego preenchendo tudo e aniquilado. Consigo recordar, com calafrios, suor frio e terror. Não é fácil lembrar, não é simples, ainda.
Hoje as memórias me vêm, muito nítidas: abri os olhos. Um borrão branco explodiu em meus nervos ópticos. Minhas mãos apalparam à frente - um vidro. A blindagem do ventre que me sustentou até aquele instante, sem eu saber, tato - novo, nas pontas de meus dedos -, mas já sentira o vidro, já tinha aqueles dados. Era mesmo como o real. O susto de ver meus dedos, a primeira vez. A ponta curva de minhas unhas. Não deveria ser assim. Então, percebi, além da barreira, um ente, outro, não eu, não os sonhos, outro alguém, um alguém que quando eu fechava os olhos, ou piscava, não sumia, nem mudava de forma.
Era uma menina. A palavra veio, mas não consegui dizê-la, apesar de saber que deveria mover meus lábios para isso e expirar, modulando as ondas com minha língua. Só borbulhas no líquor esverdeado... Encarei-a, curioso, agressivo. Ela olhava prá mim, através do tubo, através do líquido, através de meus olhos. Algo, não sei, uma pontada de sofrimento em algum canto. Eu não sabia que aquilo era sofrimento, não ainda. Mas não reagi bem.
Mesmo assim, continuei fixo nela, rilhei meus dentes. Tinha cabelos muito escuros que refletiam belos esboços de luz e olhos límpidos, colocou a mão pequena e fina palma a palma contra a minha, o vidro nos unindo, nos separando. Li nos lábios dela, um sussurro: A-S-H. E uma sensação de ternura, que também não conhecia nem sabia o que era ou sua denominação, invadiu minhas veias e amoleceu meus músculos. Havia esquecido disto por longo tempo... Mas neste instante, chego a re-sentir, minha visão estremece e sinto-me reconfortado. Eu recostei minha testa contra o tubo e fechei os olhos e quis que tudo parasse e voltasse a ser como... ... ... não sei... ... ...
Naquela manhã, na sala cheia de bips, uma sirene tocou. Relembro o som, ecoando distorcido e abafado no líquor. As luzes, piscando vermelhas e uma coleção de rostos encimando jalecos brancos com o mesmo símbolo no peito, na manga. Relevos metálicos ao redor, botões, painéis cheios de gráficos e flashes, e o zunido infernal de uma multidão de máquinas e aparelhos trocando mensagens eletromagnéticas.
A subida daquele muro que dizia: este espaço sou eu. Como num parto, minha água, lançada ao chão. Esvaziado. A nudez ao alcance deles, misturando-se a eles. Sentimentos de agorafobia. Uma centelha em mim crescendo e apagando-se, em brasa: presas - superiores - presas - superiores - onde está minha casa? Casa - palavra fora de sintonia, ruído.
Agonia: ar solubilizado em água por ar seco, pulmões queimando, traquéia, narinas ardendo. Então o olfato. Reconhecer o peso do meu corpo. Pressa e medo. Missão. Ativado. Sobreviver. Ser o melhor ou morrer, o único teste. Nomes de coisas surgindo a cada ângulo capturado pelos meus olhos. Vozes e posso entender, devagar, o que dizem. Torno-me esperto, alerta, uso suas informações, gestos, tudo que aprendo - sei que sou seu predador, sei que sou seu soldado - algo mais - sussurra um fundo.
Ela. Ainda. Mais atrás, protegida. O olhar assustado e sôfrego sobre mim. Oi, por que me olha assim? Quero... te... esganar...... ... Quero que segure minha mão... ... ... Suas mãos unidas juntas. Meu cérebro fulminou: "posição de prece, pedido de alguma graça, ou reação perante hostilidade e perda de confiança, sintoma de desespero, entrega de objetivos pessoais a algo abstrato que pessoas fracas supõem existir para protegê-las de seu destino". Seu gesto inundou minha retina. Minha boca quis balbuciar algo, mas era destreinada. Está tudo bem... ... ... Eu me seguro... ... Venha até aqui...
Uma enxurrada de mãos e instrumentos tocou minha superfície. Sentidos oscilando, fortes demais, descalibrados. Tantas texturas, sensações. Gelado, gelado, perto demais. Uma seringa, um imobilizador de aço. Quis atacá-los, mas um homem ergueu a voz para mim e meus neurônios queimaram. Contorção de braços, enosando tendões. Eu, prostrado. Primeira lição. Protocolos...
O dia em que nasci ficou nas trevas por muito tempo... Mas lembro, agora, você esteve lá. Por que?... E é como se eu te conhecesse de antes... Como? Quando?!...
O dia em que nasci foi só o primeiro de uma série, tão absurdos que por tempo demais, eu me neguei a lembrar. Ainda assim, você não desistiu de mim. Você sempre esteve ao lado, não é? Uma flor perfumando o vento, mas oculta num jardim murado. Sempre esteve envolvida comigo. Não entendo porque. Agora percebo que perdi de te perguntar. Oi... você... ainda está aí? Eu queria te...
agradecer... [te levar...]
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Now playing: Gotan Project - Epoca
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{ ... in a world of carbon fields, acid rain and rusted iron limbs, our kisses are just holographic designs floating over the cold network... there are no more prays to be listen... shallow oiled minds... his blood... so so green... as a revenge of nature growing inside his toxicated bones... as a sick thin hope to our lost souls... }
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
domingo, 21 de setembro de 2008
Worn my world, wolf, wonders my words, so wrong
Alcatéia...
Assim chamou-nos a minha origem. Disse que essa era a minha pretensão. Talvez ele esteja certo.
Sinto um dever em mim para contigo. Visceral. Isso eu sei. Então, poderia ser pretensão? Pode ser que ele esteja errado.
Não seria a primeira.
Você é agressivo comigo. Mesmo assim, sinto que devo ser paciente. Instintivamente lembro que ser desafiador faz parte dos mais jovens. E lembro outras coisas minhas que me fazem rilhar os dentes. Coisas pelas quais eu esganaria teu pescoço, só para jogá-las no esquecimento. Ou não?
Não é meu único dilema.
Que fique claro: eu comando. Dardejo teus olhos com os meus. Desfilo minha força ostensivamente. Ainda assim, encara, duvida, troça. Que há com você? Não se importa em por a si em perigo, desde que não rasteje por nada... Ah, e que foi que te fiz?
Tua fúria é estranha, também.
No meio da estrada, teu pêlo. Preto como o meu. E olhei no teu olho. Agudo e violento como o meu já foi há tempos. Palavras ácidas. Síndrome de repúdio.
Mas tua companhia me conforta.
Será engano pensar que somos um par de semelhantes? Porque agora é tarde para recuar à segurança. Já sabe de meus planos, tanto que não contei a ele, e já dividimos minha fúria pelas tuas palavras toscas. Tu tentas me derrubar com que objetivo, garoto?
Acha que não deveria ter te trazido comigo, hm?
Até mesmo minha família, fingida, desejada desde as raízes insólitas de uma alma inventada em mim, te dei a conhecer. Ela é muito mais minha porque a fiz assim. Queria que tu desses passos para dentro. Pareces preferir a solidão.
E o passado, aí está, em comum, ponto a ponto.
Quer dizer que tudo isso e ainda mais, que não digo, pode caber numa única palavra? Nessa designação descrente e humilhante? Pretensão.
Oito patas numa trilha esmaecida e esburacada. Dentes. Pulsos violentos. Tangentes, círculos e paralelas. Você é... minha Alcatéia...?
Assim chamou-nos a minha origem. Disse que essa era a minha pretensão. Talvez ele esteja certo.
Sinto um dever em mim para contigo. Visceral. Isso eu sei. Então, poderia ser pretensão? Pode ser que ele esteja errado.
Não seria a primeira.
Você é agressivo comigo. Mesmo assim, sinto que devo ser paciente. Instintivamente lembro que ser desafiador faz parte dos mais jovens. E lembro outras coisas minhas que me fazem rilhar os dentes. Coisas pelas quais eu esganaria teu pescoço, só para jogá-las no esquecimento. Ou não?
Não é meu único dilema.
Que fique claro: eu comando. Dardejo teus olhos com os meus. Desfilo minha força ostensivamente. Ainda assim, encara, duvida, troça. Que há com você? Não se importa em por a si em perigo, desde que não rasteje por nada... Ah, e que foi que te fiz?
Tua fúria é estranha, também.
No meio da estrada, teu pêlo. Preto como o meu. E olhei no teu olho. Agudo e violento como o meu já foi há tempos. Palavras ácidas. Síndrome de repúdio.
Mas tua companhia me conforta.
Será engano pensar que somos um par de semelhantes? Porque agora é tarde para recuar à segurança. Já sabe de meus planos, tanto que não contei a ele, e já dividimos minha fúria pelas tuas palavras toscas. Tu tentas me derrubar com que objetivo, garoto?
Acha que não deveria ter te trazido comigo, hm?
Até mesmo minha família, fingida, desejada desde as raízes insólitas de uma alma inventada em mim, te dei a conhecer. Ela é muito mais minha porque a fiz assim. Queria que tu desses passos para dentro. Pareces preferir a solidão.
E o passado, aí está, em comum, ponto a ponto.
Quer dizer que tudo isso e ainda mais, que não digo, pode caber numa única palavra? Nessa designação descrente e humilhante? Pretensão.
Oito patas numa trilha esmaecida e esburacada. Dentes. Pulsos violentos. Tangentes, círculos e paralelas. Você é... minha Alcatéia...?
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Greenish bubbles as iidich mumble-jumbles
Úteros artificiais. Luzes verde-azuladas, frias... Grades... Tubulações... Máquinas ninando... coisas... Cantigas rangidas entre fiações coloridas. Alumínio. Ferro. Vedações. Você, como um Deus. Tuas pupilas frias sobre aquelas criações vindas de ti. O contato de nós dois. Um presságio da sensação de peso insustentável em teu corpo. Um flash no teu rosto de menino da verdade por trás de nós dois.
Eles estavam presos. Mas, você também não era livre. Rato de laboratório. Simples código genético. Amorfo. Você foi mais sepultado que teus descendentes. Eu respirei o ar de várias cidades. Vi o sol se pôr e subir de novo. Nuvens. Folhas. Eu pintei o deserto de vermelho. Frases foram ditas só prá mim. Rocei a morte todo novo dia. Derramei-me em dezenas de mulheres. Cetim, seda. Loira, morena. Sei montar minha pistola de olhos vendados. Treze pontos fatais. Distingo o medo no teu suor.
Sei... nunca fui tão livre também. Mas eu te achei. Arrombei a porta da minha prisão. E a da tua. Tiros. Minha carne. Meu olho. Toda a realidade despencando em mim. Neóns. Sinais. Teus gráficos continuam um mistério. Tu só recolhe dados meus. Estéril. Buraco-negro. Sabes que não te pouparia. Sabes o que eu quero. Mantenha essa distância saudável. É esperto em não confiar em mim.
E então o jogo muda. Teu sorriso. Tua voz. Espio tuas brincadeiras. Meço tua aproximação do garoto. Onde está o padrão por trás dos teus atos? Teatro. Entre xícaras te estudo. Noz moscada. Maçãs. Aposto isso. Corre na minha espinha que está tramando algo... Que peça somos no teu tabuleiro, garoto-ancião?
Porque ainda me força a carregá-lo? Aquele pedido extremo, refletido nas poças sujas. Tuas lágrimas, quando antes? Nada disso combina. Cadê aquele serzinho raquítico? Onde escondeu tuas feições desbotadas? Céu cinzento rolando sobre nós. Tu me pressionas com um abraço estreito demais. Ruas num vôo uivante. Tua presença às minhas costas. Um magneto que me derruba para dentro de você. E sempre esbarro em teus portões fechados.
Tua pele clara é menos pálida que a minha. Tuas feições de menino, mais humanas. Teu olhar inspira compaixão. O meu, jamais. Derivo de ti: quando mergulho em teus olhos, no som de tuas tripas, no ritmo de tua respiração, reconheço minhas raízes. Não somos iguais, sequer parecemos...
Ah!... Aposto que o que é não passa de engodo. Você se esconde. Tudo, uma densa camuflagem. Sim, pressinto o blefe em cada silêncio teu. Hora ou outra, as cartas acabam. Vou olhá-lo direto entre os olhos, como na primeira vez. E dessa derradeira vez... te farei falar.
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Now playing: Linkin Park - Figure.09
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Eles estavam presos. Mas, você também não era livre. Rato de laboratório. Simples código genético. Amorfo. Você foi mais sepultado que teus descendentes. Eu respirei o ar de várias cidades. Vi o sol se pôr e subir de novo. Nuvens. Folhas. Eu pintei o deserto de vermelho. Frases foram ditas só prá mim. Rocei a morte todo novo dia. Derramei-me em dezenas de mulheres. Cetim, seda. Loira, morena. Sei montar minha pistola de olhos vendados. Treze pontos fatais. Distingo o medo no teu suor.
Sei... nunca fui tão livre também. Mas eu te achei. Arrombei a porta da minha prisão. E a da tua. Tiros. Minha carne. Meu olho. Toda a realidade despencando em mim. Neóns. Sinais. Teus gráficos continuam um mistério. Tu só recolhe dados meus. Estéril. Buraco-negro. Sabes que não te pouparia. Sabes o que eu quero. Mantenha essa distância saudável. É esperto em não confiar em mim.
E então o jogo muda. Teu sorriso. Tua voz. Espio tuas brincadeiras. Meço tua aproximação do garoto. Onde está o padrão por trás dos teus atos? Teatro. Entre xícaras te estudo. Noz moscada. Maçãs. Aposto isso. Corre na minha espinha que está tramando algo... Que peça somos no teu tabuleiro, garoto-ancião?
Porque ainda me força a carregá-lo? Aquele pedido extremo, refletido nas poças sujas. Tuas lágrimas, quando antes? Nada disso combina. Cadê aquele serzinho raquítico? Onde escondeu tuas feições desbotadas? Céu cinzento rolando sobre nós. Tu me pressionas com um abraço estreito demais. Ruas num vôo uivante. Tua presença às minhas costas. Um magneto que me derruba para dentro de você. E sempre esbarro em teus portões fechados.
Tua pele clara é menos pálida que a minha. Tuas feições de menino, mais humanas. Teu olhar inspira compaixão. O meu, jamais. Derivo de ti: quando mergulho em teus olhos, no som de tuas tripas, no ritmo de tua respiração, reconheço minhas raízes. Não somos iguais, sequer parecemos...
Ah!... Aposto que o que é não passa de engodo. Você se esconde. Tudo, uma densa camuflagem. Sim, pressinto o blefe em cada silêncio teu. Hora ou outra, as cartas acabam. Vou olhá-lo direto entre os olhos, como na primeira vez. E dessa derradeira vez... te farei falar.
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