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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

One

Eu nasci num dia frio e inerte.

"N
úmero sete"...

Não que eu não existisse antes... Lembro vagamente de vozes... muitas. Cânulas incômodas repuxando pele e músculos, aqui e ali em meu corpo semi-adormecido. Escaras desse contato... O conforto de um líquido... viscoso e morno, erguendo-me. Uma luz verde, irritante, no meu olho direito.

Lembro de sentir a invasão em minha mente, de tempos em tempos. Não sabia que era eu. E que aquilo era eles. Sonhava com imagens. Frases.
Normas. Inscrito em círculos de instruções. Impulsos dominavam minhas fibras. Um marionete cego, reproduzindo movimentos, mergulhado em subconsiência. Disritmia. Um universo esquizofrênico. Panos sobre panos, sobre panos que não sabia o que ser, parecia querer rasgar - as palavras sem falantes, as falas sem um toque. Solidão, apesar de sentir presenças. Um mundo abstrato, inabitado, meu ego preenchendo tudo e aniquilado. Consigo recordar, com calafrios, suor frio e terror. Não é fácil lembrar, não é simples, ainda.

Hoje as memórias me vêm, muito nítidas: abri os olhos. Um borrão branco explodiu em meus nervos ópticos. Minhas mãos apalparam à frente - um vidro. A blindagem do ventre que me sustentou até aquele instante, sem eu saber, tato - novo, nas pontas de meus dedos -, mas já sentira o vidro, já tinha aqueles dados. Era mesmo como o real. O susto de ver meus dedos, a primeira vez. A ponta curva de minhas unhas. Não deveria ser assim. Então, percebi, além da barreira, um ente, outro, não eu, não os sonhos, outro alguém, um alguém que quando eu fechava os olhos, ou piscava, não sumia, nem mudava de forma.

Era uma menina. A palavra veio, mas não consegui dizê-la, apesar de saber que deveria mover meus lábios para isso e expirar, modulando as ondas com minha língua. Só borbulhas no líquor esverdeado... Encarei-a, curioso, agressivo. Ela olhava prá mim, através do tubo, através do líquido, através de meus olhos. Algo, não sei, uma pontada de sofrimento em algum canto. Eu não sabia que aquilo era sofrimento, não ainda. Mas não reagi bem.

Mesmo assim, continuei fixo nela, rilhei meus dentes. Tinha cabelos muito escuros que refletiam belos esboços de luz e olhos límpidos, colocou a mão pequena e fina palma a palma contra a minha, o vidro nos unindo, nos separando. Li nos lábios dela, um sussurro: A-S-H. E uma sensação de ternura, que também não conhecia nem sabia o que era ou sua denominação, invadiu minhas veias e amoleceu meus músculos. Havia esquecido disto por longo tempo... Mas neste instante, chego a re-sentir, minha visão estremece e sinto-me reconfortado. Eu recostei minha testa contra o tubo e fechei os olhos e quis que tudo parasse e voltasse a ser como... ... ... não sei... ... ...

Naquela manhã, na sala cheia de bips, uma sirene tocou. Relembro o som, ecoando distorcido e abafado no líquor. As luzes, piscando vermelhas e uma coleção de rostos encimando jalecos brancos com o mesmo símbolo no peito, na manga. Relevos metálicos ao redor, botões, painéis cheios de gráficos e flashes, e o zunido infernal de uma multidão de máquinas e aparelhos trocando mensagens eletromagnéticas.

A subida daquele muro que dizia: este espaço sou eu. Como num parto, minha água, lançada ao chão. Esvaziado. A nudez ao alcance deles, misturando-se a eles. Sentimentos de agorafobia. Uma centelha em mim crescendo e apagando-se, em brasa: presas - superiores - presas - superiores - onde está minha casa? Casa - palavra fora de sintonia, ruído.

Agonia: ar solubilizado em água por ar seco, pulmões queimando, traquéia, narinas ardendo. Então o olfato. Reconhecer o peso do meu corpo. Pressa e medo. Missão. Ativado. Sobreviver. Ser o melhor ou morrer, o único teste. Nomes de coisas surgindo a cada ângulo capturado pelos meus olhos. Vozes e posso entender, devagar, o que dizem. Torno-me esperto, alerta, uso suas informações, gestos, tudo que aprendo - sei que sou seu predador, sei que sou seu soldado - algo mais - sussurra um fundo.

Ela. Ainda. Mais atrás, protegida. O olhar assustado e sôfrego sobre mim. Oi, por que me olha assim? Quero... te... esganar...... ... Quero que segure minha mão... ... ... Suas mãos unidas juntas. Meu cérebro fulminou: "posição de prece, pedido de alguma graça, ou reação perante hostilidade e perda de confiança, sintoma de desespero, entrega de objetivos pessoais a algo abstrato que pessoas fracas supõem existir para protegê-las de seu destino". Seu gesto inundou minha retina. Minha boca quis balbuciar algo, mas era destreinada. Está tudo bem... ... ... Eu me seguro... ... Venha até aqui...

Uma enxurrada de mãos e instrumentos tocou minha superfície. Sentidos oscilando, fortes demais, descalibrados. Tantas texturas, sensações. Gelado, gelado, perto demais. Uma seringa, um imobilizador de aço. Quis atacá-los, mas um homem ergueu a voz para mim e meus neurônios queimaram. Contorção de braços, enosando tendões. Eu, prostrado. Primeira lição. Protocolos...

O dia em que nasci ficou nas trevas por muito tempo... Mas lembro, agora, você esteve lá. Por que?... E é como se eu te conhecesse de antes... Como? Quando?!...

O dia em que nasci foi só o primeiro de uma série, tão absurdos que por tempo demais, eu me neguei a lembrar. Ainda assim, você não desistiu de mim. Você sempre esteve ao lado, não é? Uma flor perfumando o vento, mas oculta num jardim murado. Sempre esteve envolvida comigo. Não entendo porque. Agora percebo que perdi de te perguntar. Oi... você... ainda está aí? Eu queria te...

agradecer...
[te levar...]

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Now playing: Gotan Project - Epoca

via FoxyTunes

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Greenish bubbles as iidich mumble-jumbles

Úteros artificiais. Luzes verde-azuladas, frias... Grades... Tubulações... Máquinas ninando... coisas... Cantigas rangidas entre fiações coloridas. Alumínio. Ferro. Vedações. Você, como um Deus. Tuas pupilas frias sobre aquelas criações vindas de ti. O contato de nós dois. Um presságio da sensação de peso insustentável em teu corpo. Um flash no teu rosto de menino da verdade por trás de nós dois.

Eles estavam presos. Mas, você também não era livre. Rato de laboratório. Simples código genético. Amorfo. Você foi mais sepultado que teus descendentes. Eu respirei o ar de várias cidades. Vi o sol se pôr e subir de novo. Nuvens. Folhas. Eu pintei o deserto de vermelho. Frases foram ditas só prá mim. Rocei a morte todo novo dia. Derramei-me em dezenas de mulheres. Cetim, seda. Loira, morena. Sei montar minha pistola de olhos vendados. Treze pontos fatais. Distingo o medo no teu suor.

Sei... nunca fui tão livre também. Mas eu te achei. Arrombei a porta da minha prisão. E a da tua. Tiros. Minha carne. Meu olho. Toda a realidade despencando em mim. Neóns. Sinais. Teus gráficos continuam um mistério. Tu só recolhe dados meus. Estéril. Buraco-negro. Sabes que não te pouparia. Sabes o que eu quero. Mantenha essa distância saudável. É esperto em não confiar em mim.

E então o jogo muda. Teu sorriso. Tua voz. Espio tuas brincadeiras. Meço tua aproximação do garoto. Onde está o padrão por trás dos teus atos? Teatro. Entre xícaras te estudo. Noz moscada. Maçãs. Aposto isso. Corre na minha espinha que está tramando algo... Que peça somos no teu tabuleiro, garoto-ancião?

Porque ainda me força a carregá-lo? Aquele pedido extremo, refletido nas poças sujas. Tuas lágrimas, quando antes? Nada disso combina. Cadê aquele serzinho raquítico? Onde escondeu tuas feições desbotadas? Céu cinzento rolando sobre nós. Tu me pressionas com um abraço estreito demais. Ruas num vôo uivante. Tua presença às minhas costas. Um magneto que me derruba para dentro de você. E sempre esbarro em teus portões fechados.

Tua pele clara é menos pálida que a minha. Tuas feições de menino, mais humanas. Teu olhar inspira compaixão. O meu, jamais. Derivo de ti: quando mergulho em teus olhos, no som de tuas tripas, no ritmo de tua respiração, reconheço minhas raízes. Não somos iguais, sequer parecemos...

Ah!... Aposto que o que é não passa de engodo. Você se esconde. Tudo, uma densa camuflagem. Sim, pressinto o blefe em cada silêncio teu. Hora ou outra, as cartas acabam. Vou olhá-lo direto entre os olhos, como na primeira vez. E dessa derradeira vez... te farei falar.


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Now playing: Linkin Park - Figure.09
via FoxyTunes

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Snow-white skin zero-celsius paramecius

Confesso... (termo estranho, coisa daquele Padreco!) Confesso que me dá terror sentir tuas mãos pequenas e brancas tocarem minha carne. Quando durmo, acordo alarmado e percebo que é só você se recostando em mim...

Quem pensa que é, para tal licença?! Quem pensa que EU sou?!!

Já aprendi que teu toque não significa meu prazer... Humilhante... - Tive ganas de esguelar-te, prensando esse teu pescoço magro, fraco!, entre minhas garras até que não sobrasse uma molécula sequer de oxigênio nesse teu corpo débil!!!

Não consegui. Por que? Foi o primeiro que não eliminei. Me pergunto todos os dias: - por que??? Seria porque tu és tão submisso? Porque não te excedes contra mim, nem revida?... Não... Talvez porque sejamos próximos no núcleo de cada célula. Talvez porque você seja VOCÊ - o Marco Zero. E talvez eu deseje aprender o que você sabe.

Pode ser um engano. Posso acabar descobrindo que você é uma fraude. Nada tem a me ensinar que valha o ar que você respira... Se o que eu pressuponho for um delírio, então...

Os dias correm e você não solta sequer uma frase inteira. Parece me sondar e conhecer meu desejo. As crianças brincam, comem, brigam, dormem ao nosso redor. Você, porém, continua preso a mim, mesmo que eu não o tenha algemado... E seus olhos sobre meu rosto não são os de um condenado, e sim de quem me sentencia...

Nossos diálogos são só nossos. Gestos, olhares, cheiros da pele. Absurdo quantas vezes teus argumentos já me interromperam. Quantas vezes abaixei a voz, recuei numa decisão, engoli a ira, ou acompanhei você. Quantas vezes aceitei sentar-me nesse mármore frio para que você deitasse em meu colo?

... e olhando seu sono sereno, quantas vezes me questionei quem eu seria se não tivesse sido quem fui?...

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Now playing: Fort Minor - Petrified
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Steel drops from a grey mind

Quem somos, quando não somos ninguém? Quando o que somos define-se pela instrumentabilidade? - coisa que deve funcionar - Quando não somos, somente servimos?...

Não pense que eu não sei meu lugar! - Sei!... Fui feito à imagem não de Deus, como você, mas de um instrumento necessário ao Homem. Estou na prateleira tanto quanto aquela xícara em que você bebe, ou esta adaga com a qual poderia lhe cortar as tripas - não! Hey!!! Espere!!!

Não vá!... Não deve se preocupar, eu já não funciono mais - não como deveria... E quando me ponho em ação, tenho a impressão de que alguém, talvez você, me pegará confessando em voz alta: - "estou estragado! terrivelmente estragado!!! não sou só inútil, sou uma piada, um avesso, um traidor, um câncer! como o tal Lúcifer, me levanto contra meu próprio Criador..."

Quando sentei ao lado dela, naquela escada... aquela conversa me contaminando, minando todas as minhas certezas... destravando pensamentos que jamais deveria ter tido... lá, naqueles degraus, já estava estragado... Antes que você me dissesse a primeira palavra, de alguma forma, imperceptível, eu já estava incubando isso...

Muitos passos antes de invadir... de violar... de destruir... de trair... de eliminar alvos amigos... Não, não foi a partir do momento em que me recusei a cooperar, em que me recusei a ser silenciado... Fraquejei antes. Eu tinha um defeito que ninguém percebeu. Uma falha qualquer, onde? por culpa de quem? nos meus genes? no meu treinamento?... Ou foi algo sorrateiro, que nasceu à revelia de qualquer programação, meu primeiro fruto, minha primeira decisão?

O que sei é que tenho gosto de ferro em minha boca. Que ranjo os dentes de cabeça baixa quando passo horas com minha cabeça zunindo. E sei que virão me exterminar. E que, quando conseguirem, se livrarão dos meus restos como se fossem merda. Mas não sei se deveria seguir meu impulso e matá-los, um a um - chego a sonhar com isso e como é bom! (mesmo que tenha de lavar a porra das coxas) - começando por ele, aquele desgraçado...

Você, mulher, você, senhorita perfeita, filha mimada e dissimulada, você, um dia me fez encarar meu reflexo no espelho. Você me brindou com a morte, naqueles degraus, tudo que fui ficou sepultado para que seu sorriso ficasse maior
. Talvez um dia, eu retribua o favor, e você esteja do outro lado da minha lâmina...

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Now playing: Linkin Park - Lying From You
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