Eu nasci num dia frio e inerte.
"Número sete"...
Não que eu não existisse antes... Lembro vagamente de vozes... muitas. Cânulas incômodas repuxando pele e músculos, aqui e ali em meu corpo semi-adormecido. Escaras desse contato... O conforto de um líquido... viscoso e morno, erguendo-me. Uma luz verde, irritante, no meu olho direito.
Lembro de sentir a invasão em minha mente, de tempos em tempos. Não sabia que era eu. E que aquilo era eles. Sonhava com imagens. Frases. Normas. Inscrito em círculos de instruções. Impulsos dominavam minhas fibras. Um marionete cego, reproduzindo movimentos, mergulhado em subconsiência. Disritmia. Um universo esquizofrênico. Panos sobre panos, sobre panos que não sabia o que ser, parecia querer rasgar - as palavras sem falantes, as falas sem um toque. Solidão, apesar de sentir presenças. Um mundo abstrato, inabitado, meu ego preenchendo tudo e aniquilado. Consigo recordar, com calafrios, suor frio e terror. Não é fácil lembrar, não é simples, ainda.
Hoje as memórias me vêm, muito nítidas: abri os olhos. Um borrão branco explodiu em meus nervos ópticos. Minhas mãos apalparam à frente - um vidro. A blindagem do ventre que me sustentou até aquele instante, sem eu saber, tato - novo, nas pontas de meus dedos -, mas já sentira o vidro, já tinha aqueles dados. Era mesmo como o real. O susto de ver meus dedos, a primeira vez. A ponta curva de minhas unhas. Não deveria ser assim. Então, percebi, além da barreira, um ente, outro, não eu, não os sonhos, outro alguém, um alguém que quando eu fechava os olhos, ou piscava, não sumia, nem mudava de forma.
Era uma menina. A palavra veio, mas não consegui dizê-la, apesar de saber que deveria mover meus lábios para isso e expirar, modulando as ondas com minha língua. Só borbulhas no líquor esverdeado... Encarei-a, curioso, agressivo. Ela olhava prá mim, através do tubo, através do líquido, através de meus olhos. Algo, não sei, uma pontada de sofrimento em algum canto. Eu não sabia que aquilo era sofrimento, não ainda. Mas não reagi bem.
Mesmo assim, continuei fixo nela, rilhei meus dentes. Tinha cabelos muito escuros que refletiam belos esboços de luz e olhos límpidos, colocou a mão pequena e fina palma a palma contra a minha, o vidro nos unindo, nos separando. Li nos lábios dela, um sussurro: A-S-H. E uma sensação de ternura, que também não conhecia nem sabia o que era ou sua denominação, invadiu minhas veias e amoleceu meus músculos. Havia esquecido disto por longo tempo... Mas neste instante, chego a re-sentir, minha visão estremece e sinto-me reconfortado. Eu recostei minha testa contra o tubo e fechei os olhos e quis que tudo parasse e voltasse a ser como... ... ... não sei... ... ...
Naquela manhã, na sala cheia de bips, uma sirene tocou. Relembro o som, ecoando distorcido e abafado no líquor. As luzes, piscando vermelhas e uma coleção de rostos encimando jalecos brancos com o mesmo símbolo no peito, na manga. Relevos metálicos ao redor, botões, painéis cheios de gráficos e flashes, e o zunido infernal de uma multidão de máquinas e aparelhos trocando mensagens eletromagnéticas.
A subida daquele muro que dizia: este espaço sou eu. Como num parto, minha água, lançada ao chão. Esvaziado. A nudez ao alcance deles, misturando-se a eles. Sentimentos de agorafobia. Uma centelha em mim crescendo e apagando-se, em brasa: presas - superiores - presas - superiores - onde está minha casa? Casa - palavra fora de sintonia, ruído.
Agonia: ar solubilizado em água por ar seco, pulmões queimando, traquéia, narinas ardendo. Então o olfato. Reconhecer o peso do meu corpo. Pressa e medo. Missão. Ativado. Sobreviver. Ser o melhor ou morrer, o único teste. Nomes de coisas surgindo a cada ângulo capturado pelos meus olhos. Vozes e posso entender, devagar, o que dizem. Torno-me esperto, alerta, uso suas informações, gestos, tudo que aprendo - sei que sou seu predador, sei que sou seu soldado - algo mais - sussurra um fundo.
Ela. Ainda. Mais atrás, protegida. O olhar assustado e sôfrego sobre mim. Oi, por que me olha assim? Quero... te... esganar...... ... Quero que segure minha mão... ... ... Suas mãos unidas juntas. Meu cérebro fulminou: "posição de prece, pedido de alguma graça, ou reação perante hostilidade e perda de confiança, sintoma de desespero, entrega de objetivos pessoais a algo abstrato que pessoas fracas supõem existir para protegê-las de seu destino". Seu gesto inundou minha retina. Minha boca quis balbuciar algo, mas era destreinada. Está tudo bem... ... ... Eu me seguro... ... Venha até aqui...
Uma enxurrada de mãos e instrumentos tocou minha superfície. Sentidos oscilando, fortes demais, descalibrados. Tantas texturas, sensações. Gelado, gelado, perto demais. Uma seringa, um imobilizador de aço. Quis atacá-los, mas um homem ergueu a voz para mim e meus neurônios queimaram. Contorção de braços, enosando tendões. Eu, prostrado. Primeira lição. Protocolos...
O dia em que nasci ficou nas trevas por muito tempo... Mas lembro, agora, você esteve lá. Por que?... E é como se eu te conhecesse de antes... Como? Quando?!...
O dia em que nasci foi só o primeiro de uma série, tão absurdos que por tempo demais, eu me neguei a lembrar. Ainda assim, você não desistiu de mim. Você sempre esteve ao lado, não é? Uma flor perfumando o vento, mas oculta num jardim murado. Sempre esteve envolvida comigo. Não entendo porque. Agora percebo que perdi de te perguntar. Oi... você... ainda está aí? Eu queria te...
agradecer... [te levar...]
----------------
Now playing: Gotan Project - Epoca
via FoxyTunes
{ ... in a world of carbon fields, acid rain and rusted iron limbs, our kisses are just holographic designs floating over the cold network... there are no more prays to be listen... shallow oiled minds... his blood... so so green... as a revenge of nature growing inside his toxicated bones... as a sick thin hope to our lost souls... }
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
terça-feira, 4 de março de 2008
Top Distopia over Scapular Scatters
Eu caminho sobre uma estrada de ossos num mundo branco e preto...
Conto números infinitos em bilhões. Meu peito ressoa em batidas fortes, eufóricas...
Sou o melhor de todos eles, inquestionavelmente. Quero ler meu placar e confirmar isso, mas, em meu pulso, a tela verde cintilante em decibéis e bytes revela: "SAUDAÇÕES PARA O MELHOR QUE SE PODE COMPRAR DA CIÊNCIA! PAPAI GASTOU BEM O DINHEIRO DA SHINRA!"
Há algo errado. Passo a passo, a dúvida cresce. Angústia. Falo e o áudio chia. Ninguém responde da sala de comando. ROGER - C TEAM - WAY HOUR INTO TIGER EMPTY - STRIKE NOTE - CLEAR - DABLIO MOVE - ARE U COPYING ME? - ROGER. Modulações de estática. Craquelares sob meus pés. Silêncio do lado de lá.
O gosto de meus oponentes pesa cada vez mais sobre minha língua. Tento de novo. E de novo. Outra vez. Minha voz esganiça-se ao passar das horas até um crocitar impossível de distingüir em palavras. Abandonado em missão. Volto. Xingando, mas voltarei a pé mesmo que gaste semanas.
Caminho. Ando. Movo-me. Percorro. Ossos. Crânios. Fêmures. Vértebras. Igual. Sinto a distância escoar entre meus passos - mas o caminho até em casa... não encurta. Há algo infinitamente errado em tudo. Em mim. No Mundo. Desde quando, uma casa?...
Horizontes caiados. Céu puro. Chuva suja. Um ar saturado de fins. Perdido. Sem retorno. Corro. Arfo. Acelero. Asfixio. Algo em meu peito. Dói. Feições. Vozes. Uma dor. Funda. Oca. Traiçoeira. Quero... você. Vocês. Chegar. Onde. Pertenço. Onde. Sou necessário. Sou. Urgente.
Apresso-me. Sons. Tato. Milhões. Mortos. Quebro. Quebro. Quebro. Emperro. A bota. Presa. Puxo. Arqueio. Atiro. Solta, porra!!! Pressinto. Algo errado. O rabo do olho. Olho. Não olho. Ela. Canela. Desafiadora. Orgulhosa. Faminta. Olho. É ela. Não. O cheiro. Abaixo. Vou tocar. Retrocedo. Ergo-me. Afasto. Por que? Flores de aço.
Tento voltar. Objetivo. Era ela. Seja objetivo. Chegar lá. Confuso. Lembranças. Estranhas. Perdi o olho. Perdi crianças. Tirei do lixo. Quando? Tropeço. Arfo. Meus dedos. Eu sei. Não quero. Vejo. Miguel... Moscas bebendo nele. Olhos. Como xícaras de vermes. Bato nelas. Seguro nele. Incorreto. Estupidez. Nada a fazer. Alvo silenciado. Alvo... amigo...
Como??? Tenho que chegar. Lá. Lá... onde? Corro. Tento lembrar. Meu peito dói. Uma coisa negra. Aqui. Na minha cabeça. Náuseas. Shinra. Srta. Lúnia. Escadaria. Tubos. Febre. Algo à frente. Quebro. Quebro. Enxarcado. Perto. Mais perto. Uma estaca. Mais. Mais. Não. Uma... cruz. Cruz. Negra. Alta. Ergo o olho. Sinto seu peso em mim. A gravidade dela cai em mim. Força meu corpo. Botas tremem. Joelhos vergam. O sangue dele pinga. Olho no olho. O Santo. Muito forte. Tão mais forte. Lá. Se soltá-lo? Frio, azul. Uma lembrança. Ele... consertaria?
Tudo gira. Gira. Me perco. Resvalo. Grogue. Chove demais. O Oceano sobre nós. Sobre... eu. Um lugar. Urgente. Onde, eu...? Não. Não é na Shinra. Onde? Prá onde? A água sobe. Torvelinhos. Turbilhões. Engasgo. Nado. Afogo. Cabelos dourados. Morangos. Gosto na boca. Tubos. Colegas. Corpos brancos. Milhões de outros eus. Não! Espera! Nado. Proteínas em degeneração. Tripas. Turbilhões. Descartável. Somos. Coisas sem alma. Braçadas. Estertores. Convulsões. Um grito rouco. Preciso... chegar... Sou... necessário!
Tudo escorre ralo abaixo. Sobra eu. Folhas de um livro velho. Grudadas em minha pele. Mofo. Letras bonitas. Arfando. Vomitando. Tossindo. Zonzo. Uma voz mecânica. "Você é o único de pé." Não! Não, eu? O que?! O vidro abre. Lembro. Ali. O guri. Meus gens. A fuga. Corro. Corredores. Escadas. Degraus. Barulho alto. Vibração. Geradores. Som. Arquejo. Meus... ouvidos... Avanço. Sala de reatores. Luzes enegrecidas. Piscando. Colapso. Mal respiro. Percebo. "Era aqui! Aqui... que eu... deveria estar..."
O mako reveste tudo com seu fulgor. Lá. Lavado de azul, te reconheço. Firme nas tuas pernas. Costas eretas. Agonia. Veio aqui sem mim? Falhei contigo? Ando para ti. Chegar. - Falhei, não foi?!! - Tão mortos! - Por que me preocupo? - Tão todos mortos!!! - Por que dói em mim??? Preciso, chegar. Olhe prá mim. - Fale algo! Resvalo em gelo, sangue. Caio. Marcado de escarlate, levanto. Um monstro negro em minha garganta.
Estendo os dedos para ti. Estendo a luva. O braço todo. O corpo, um pseudópode, para ti. Preciso alcançá-lo! Tocá-lo. Só não posso falar. Vou me trair, se falar. A voz, vai tremer. Ondas de pensamento naufragam "Tá tudo errado! Isso não está nos nossos planos! Entende? Há coisas que um homem deve fazer! Eles confiam na gente!" Chego em teu ombro. Cada falange congela e cola nele.
Congelam...
Aos poucos, deixo-me entender o que isso significa...
O Mundo pára...
Eu travo meu ar, atônito...
Agonizo atrás de ti. "O único de pé."
Sinto o olho arder, o peito arder. "Isso é chorar."
Falhei.
Não caí.
Mas...
Falhei!
Escuto o bip.
Meu coração dispara, torcido.
Letras emergem em rajadas cítiricas:
UM CÃO JAMAIS ESQUECE SEU DONO.
VOCÊ NUNCA NOS DECEPCIONA.
A SHINRA LHE PARABENIZA.
Conto números infinitos em bilhões. Meu peito ressoa em batidas fortes, eufóricas...
Sou o melhor de todos eles, inquestionavelmente. Quero ler meu placar e confirmar isso, mas, em meu pulso, a tela verde cintilante em decibéis e bytes revela: "SAUDAÇÕES PARA O MELHOR QUE SE PODE COMPRAR DA CIÊNCIA! PAPAI GASTOU BEM O DINHEIRO DA SHINRA!"
Há algo errado. Passo a passo, a dúvida cresce. Angústia. Falo e o áudio chia. Ninguém responde da sala de comando. ROGER - C TEAM - WAY HOUR INTO TIGER EMPTY - STRIKE NOTE - CLEAR - DABLIO MOVE - ARE U COPYING ME? - ROGER. Modulações de estática. Craquelares sob meus pés. Silêncio do lado de lá.
O gosto de meus oponentes pesa cada vez mais sobre minha língua. Tento de novo. E de novo. Outra vez. Minha voz esganiça-se ao passar das horas até um crocitar impossível de distingüir em palavras. Abandonado em missão. Volto. Xingando, mas voltarei a pé mesmo que gaste semanas.
Caminho. Ando. Movo-me. Percorro. Ossos. Crânios. Fêmures. Vértebras. Igual. Sinto a distância escoar entre meus passos - mas o caminho até em casa... não encurta. Há algo infinitamente errado em tudo. Em mim. No Mundo. Desde quando, uma casa?...
Horizontes caiados. Céu puro. Chuva suja. Um ar saturado de fins. Perdido. Sem retorno. Corro. Arfo. Acelero. Asfixio. Algo em meu peito. Dói. Feições. Vozes. Uma dor. Funda. Oca. Traiçoeira. Quero... você. Vocês. Chegar. Onde. Pertenço. Onde. Sou necessário. Sou. Urgente.
Apresso-me. Sons. Tato. Milhões. Mortos. Quebro. Quebro. Quebro. Emperro. A bota. Presa. Puxo. Arqueio. Atiro. Solta, porra!!! Pressinto. Algo errado. O rabo do olho. Olho. Não olho. Ela. Canela. Desafiadora. Orgulhosa. Faminta. Olho. É ela. Não. O cheiro. Abaixo. Vou tocar. Retrocedo. Ergo-me. Afasto. Por que? Flores de aço.
Tento voltar. Objetivo. Era ela. Seja objetivo. Chegar lá. Confuso. Lembranças. Estranhas. Perdi o olho. Perdi crianças. Tirei do lixo. Quando? Tropeço. Arfo. Meus dedos. Eu sei. Não quero. Vejo. Miguel... Moscas bebendo nele. Olhos. Como xícaras de vermes. Bato nelas. Seguro nele. Incorreto. Estupidez. Nada a fazer. Alvo silenciado. Alvo... amigo...
Como??? Tenho que chegar. Lá. Lá... onde? Corro. Tento lembrar. Meu peito dói. Uma coisa negra. Aqui. Na minha cabeça. Náuseas. Shinra. Srta. Lúnia. Escadaria. Tubos. Febre. Algo à frente. Quebro. Quebro. Enxarcado. Perto. Mais perto. Uma estaca. Mais. Mais. Não. Uma... cruz. Cruz. Negra. Alta. Ergo o olho. Sinto seu peso em mim. A gravidade dela cai em mim. Força meu corpo. Botas tremem. Joelhos vergam. O sangue dele pinga. Olho no olho. O Santo. Muito forte. Tão mais forte. Lá. Se soltá-lo? Frio, azul. Uma lembrança. Ele... consertaria?
Tudo gira. Gira. Me perco. Resvalo. Grogue. Chove demais. O Oceano sobre nós. Sobre... eu. Um lugar. Urgente. Onde, eu...? Não. Não é na Shinra. Onde? Prá onde? A água sobe. Torvelinhos. Turbilhões. Engasgo. Nado. Afogo. Cabelos dourados. Morangos. Gosto na boca. Tubos. Colegas. Corpos brancos. Milhões de outros eus. Não! Espera! Nado. Proteínas em degeneração. Tripas. Turbilhões. Descartável. Somos. Coisas sem alma. Braçadas. Estertores. Convulsões. Um grito rouco. Preciso... chegar... Sou... necessário!
Tudo escorre ralo abaixo. Sobra eu. Folhas de um livro velho. Grudadas em minha pele. Mofo. Letras bonitas. Arfando. Vomitando. Tossindo. Zonzo. Uma voz mecânica. "Você é o único de pé." Não! Não, eu? O que?! O vidro abre. Lembro. Ali. O guri. Meus gens. A fuga. Corro. Corredores. Escadas. Degraus. Barulho alto. Vibração. Geradores. Som. Arquejo. Meus... ouvidos... Avanço. Sala de reatores. Luzes enegrecidas. Piscando. Colapso. Mal respiro. Percebo. "Era aqui! Aqui... que eu... deveria estar..."
O mako reveste tudo com seu fulgor. Lá. Lavado de azul, te reconheço. Firme nas tuas pernas. Costas eretas. Agonia. Veio aqui sem mim? Falhei contigo? Ando para ti. Chegar. - Falhei, não foi?!! - Tão mortos! - Por que me preocupo? - Tão todos mortos!!! - Por que dói em mim??? Preciso, chegar. Olhe prá mim. - Fale algo! Resvalo em gelo, sangue. Caio. Marcado de escarlate, levanto. Um monstro negro em minha garganta.
Estendo os dedos para ti. Estendo a luva. O braço todo. O corpo, um pseudópode, para ti. Preciso alcançá-lo! Tocá-lo. Só não posso falar. Vou me trair, se falar. A voz, vai tremer. Ondas de pensamento naufragam "Tá tudo errado! Isso não está nos nossos planos! Entende? Há coisas que um homem deve fazer! Eles confiam na gente!" Chego em teu ombro. Cada falange congela e cola nele.
Congelam...
Aos poucos, deixo-me entender o que isso significa...
O Mundo pára...
Eu travo meu ar, atônito...
Agonizo atrás de ti. "O único de pé."
Sinto o olho arder, o peito arder. "Isso é chorar."
Falhei.
Não caí.
Mas...
Falhei!
Escuto o bip.
Meu coração dispara, torcido.
Letras emergem em rajadas cítiricas:
UM CÃO JAMAIS ESQUECE SEU DONO.
VOCÊ NUNCA NOS DECEPCIONA.
A SHINRA LHE PARABENIZA.
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domingo, 2 de março de 2008
Crimson mouths cry my crimes so do I
A cidade dorme. Aqui de cima, vejo seu grande organismo putrefato respirar vagaroso. Luzes. Rumores. Escuridão.
Da beirada observo tudo, mas não mais como antes. Seis meses cheirando meias sujas de fedelhos, menos de uma semana ao seu lado. Algumas vozes silenciaram em mim. E deram espaço a outras. Olho a cidade e não a reconheço - nem ela a mim.
Minhas retinas de tapetum lucidum captam silhuetas imóveis muito ao longe. Você deve estar com ele, naquela direção. Está saindo conforme teu plano?... Fecho os olhos e invoco minha mente para a mesma energia. Tê-lo perto o fará mais forte... ou mais descansado? Ou mais feliz? Talvez todas essas coisas, quem sabe?...
Sinto a aragem como o bafo pesado dessa garganta imunda de concreto, asfalto e vigas metálicas. Me inquieto. Essa dor, estranha em mim, renasce hoje de novo. Eu tinha de estar em outro lugar. É como se tivesse esquecido algo para trás...
Reviro tudo em rápidos flashes de uma memória viva demais. Visual e olfativa. De sons claros em hi-fi. É só insônia, é só expectativa diante de uma nova missão. Você me pediu para tomar conta dos pivetes. Cá estou, não abandonei esse posto tedioso. Mas há algo importante que continua me chamando sem que eu distinga o que.
Deito sobre minhas costas, acendo um cigarro escasso, digito mais algumas palavras nesse diário. Fixo meu olho naquelas nuvens amareladas que escondem a Lua. Bytes passam. As palavras do Santo cochicham algo. As suas, cantam baixo quase a mesma coisa, mas diferente.
Meu coração atropela. O estômago embrulha. Toda a beleza do Mundo que vocês dirigem a mim e me fazem ver, traz de volta a podridão que deixei no meu rastro.
Crianças com fome. Crianças aos pedaços. Olhos miúdos em fresta. Gente ou ratos? Ratos de laboratório. Tubos. Programações. Alvos. Sangue. Sangue. Sangue. Teu sexo. Teus olhos me pedindo. O que?... O que?!... Ausências. Portas. Rotinas. Rebeldes aos montes. Rebeldes em pilhas ao ar livre. Monturos de gente. Carne apodrecendo. Lixo. Tua mão pequenina, suja. Teu choro pungente. Teu desespero desamparado dentro de mim. Estou ruindo... Ruindo... Ru-in-do... Zilhões de farpas. Tiros. Pressa. Lâminas. Tripas. Gritos. "Misericórdia". Eu destruí. Eu destruí! Destruí!!!... O Crucificado me encara. Perto demais. O Santo me abençoa. Você me estende o braço. Um homem que não conheço se curva aos meus pés. "Obrigado" ele sussurra na lama. Uma flor hoje. Um sorriso de menino. Morangos. Bocas abertas tão vermelhas e secas implorando. Crianças murchando lá fora pelo chão.
Arfo. Controlo o pulso. Acocoro-me no peitoril vendo tudo borrado. Digito e revejo. Estou estragado. Tão estragado... Meu prazer agora só evoca o raciocínio amargo de que vocês nada têm...
Da beirada observo tudo, mas não mais como antes. Seis meses cheirando meias sujas de fedelhos, menos de uma semana ao seu lado. Algumas vozes silenciaram em mim. E deram espaço a outras. Olho a cidade e não a reconheço - nem ela a mim.
Minhas retinas de tapetum lucidum captam silhuetas imóveis muito ao longe. Você deve estar com ele, naquela direção. Está saindo conforme teu plano?... Fecho os olhos e invoco minha mente para a mesma energia. Tê-lo perto o fará mais forte... ou mais descansado? Ou mais feliz? Talvez todas essas coisas, quem sabe?...
Sinto a aragem como o bafo pesado dessa garganta imunda de concreto, asfalto e vigas metálicas. Me inquieto. Essa dor, estranha em mim, renasce hoje de novo. Eu tinha de estar em outro lugar. É como se tivesse esquecido algo para trás...
Reviro tudo em rápidos flashes de uma memória viva demais. Visual e olfativa. De sons claros em hi-fi. É só insônia, é só expectativa diante de uma nova missão. Você me pediu para tomar conta dos pivetes. Cá estou, não abandonei esse posto tedioso. Mas há algo importante que continua me chamando sem que eu distinga o que.
Deito sobre minhas costas, acendo um cigarro escasso, digito mais algumas palavras nesse diário. Fixo meu olho naquelas nuvens amareladas que escondem a Lua. Bytes passam. As palavras do Santo cochicham algo. As suas, cantam baixo quase a mesma coisa, mas diferente.
Meu coração atropela. O estômago embrulha. Toda a beleza do Mundo que vocês dirigem a mim e me fazem ver, traz de volta a podridão que deixei no meu rastro.
Crianças com fome. Crianças aos pedaços. Olhos miúdos em fresta. Gente ou ratos? Ratos de laboratório. Tubos. Programações. Alvos. Sangue. Sangue. Sangue. Teu sexo. Teus olhos me pedindo. O que?... O que?!... Ausências. Portas. Rotinas. Rebeldes aos montes. Rebeldes em pilhas ao ar livre. Monturos de gente. Carne apodrecendo. Lixo. Tua mão pequenina, suja. Teu choro pungente. Teu desespero desamparado dentro de mim. Estou ruindo... Ruindo... Ru-in-do... Zilhões de farpas. Tiros. Pressa. Lâminas. Tripas. Gritos. "Misericórdia". Eu destruí. Eu destruí! Destruí!!!... O Crucificado me encara. Perto demais. O Santo me abençoa. Você me estende o braço. Um homem que não conheço se curva aos meus pés. "Obrigado" ele sussurra na lama. Uma flor hoje. Um sorriso de menino. Morangos. Bocas abertas tão vermelhas e secas implorando. Crianças murchando lá fora pelo chão.
Arfo. Controlo o pulso. Acocoro-me no peitoril vendo tudo borrado. Digito e revejo. Estou estragado. Tão estragado... Meu prazer agora só evoca o raciocínio amargo de que vocês nada têm...
[to be continued...]
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Fractal flesh on factoid flashes
Estava dirigindo o caminhão, quando de repente, minha memória foi invadida por aqueles eventos esquecidos. Por meses eu me torturei, procurando pistas sobre meu desvio... Um instante qualquer em que tivesse pressentido que iria sair da estrada... Eu lembrei... finalmente.
Cores. Fragmentos estanques de espaço-tempo. Como uma estilhaço de ferro quente, sua figura perfumada. Era meu primeiro dia em campo junto com civis. Via por cima dos bancos, o recorte dos ombros do CANNIBAL número 3, um dos sêniores. 'Tava tão nervoso e cheio de adrenalina que poderia gritar e correr em círculos, subir muros e me atirar de um penhasco. A caravana perdia Midgard quilômetros atrás.
Tédio, nada acontecia. Do meu lado uma sentença grave se passasse o sinal. Tinha que suportar. Imaginei que era um teste. Que, a qualquer momento, minha concentração seria vital. Eliminar alvos. O campo verde em minhas pupilas. Uns acionistas gordos, uns ratos de laboratório e tocando o circo, o teu pai, lá na frente. Pela janela, um Mundo que eu desconhecia. Risadas cínicas, comentários maliciosos de impotentes. A poucos centímetros de mim, você, dividindo o banco comigo.
O couro claro exalava cheiro de cera. O teu fruto proibido me enchia a boca de água. Um céu claro demais, de um creme berrante que faísca dourado. Cerro meu olho só de recordar. Meu rosto, tão mais novo e zerado, espelhado em teus olhos insistentes. Eu via árvores... Nuvens... Céu... O que conversamos? Suas palavras velhas, de dez anos, sopram de novo, uma coisa ou outra. "... tudo que nasce tem uma ligação especial..."
Um feixe de luz dançava na tua blusa, iluminava ora tua boca, ora uma mecha de teus cabelos negros. "... o que fez até agora?" Tu eras não mais que uma garota recém pondo peitos. " ... mas é feliz?" Feliz... Número três respirava devagar. Teu pai metralhava explicações. Fecho o olho e ainda posso sentir tua mão sobre a minha, escondida deles. "nunca tinha sentido falta do céu? eu sempre..." Um projeto. Melhoramentos. Reservas ricas em carga genética...
"Você é um animal livre como... " Vozes de feras decantando fundo. O cheiro do vento. "... correr pelo Mundo?" Teus argumentos iam num crescendo de desespero e intimidade. "Não suporto o que meu pai está fazendo com você! conosco!... você é muito mais que um cão de guerra! " Tua coxa encostou na minha. Fiquei duro e tentei me concentrar em não dar na vista. Vi uma mancha azul vibrando, vibrando entre nuvens. Eu achava ainda que era o soldado perfeito.
Espio pela janela do caminhão e relembro de fazer o mesmo gesto quando tu me apontavas insetos, pássaros distantes, flores sobrecarregadas de cor. "... o que você realmente quer?" Teu coração impunha um ritmo de pedidos urgentes: me liberte, me entenda... me foda... Não a atendi, fiz tudo parecer que a ignorava.
Enfrentamos ameaças por duas vezes. Entrei no blindado como teu campeão, primeiro aplaudido, depois espreitado com pena. "... estava me protegendo mesmo?" "... não" "... só quer ver sangue..." "... você só tem esse maldito treinamento, não é?!" Espreitava lágrimas em teus cílios pesados. Mas o que te fazia sofrer, eu não conseguia alcançar... "por que não me responde???" Saí da missão sem máculas, com recomendações. Pus você em seu lugar. Uma simples boceta civil. Fiz carreira. Tinha virado a página...
Cores. Fragmentos estanques de espaço-tempo. Como uma estilhaço de ferro quente, sua figura perfumada. Era meu primeiro dia em campo junto com civis. Via por cima dos bancos, o recorte dos ombros do CANNIBAL número 3, um dos sêniores. 'Tava tão nervoso e cheio de adrenalina que poderia gritar e correr em círculos, subir muros e me atirar de um penhasco. A caravana perdia Midgard quilômetros atrás.
Tédio, nada acontecia. Do meu lado uma sentença grave se passasse o sinal. Tinha que suportar. Imaginei que era um teste. Que, a qualquer momento, minha concentração seria vital. Eliminar alvos. O campo verde em minhas pupilas. Uns acionistas gordos, uns ratos de laboratório e tocando o circo, o teu pai, lá na frente. Pela janela, um Mundo que eu desconhecia. Risadas cínicas, comentários maliciosos de impotentes. A poucos centímetros de mim, você, dividindo o banco comigo.
O couro claro exalava cheiro de cera. O teu fruto proibido me enchia a boca de água. Um céu claro demais, de um creme berrante que faísca dourado. Cerro meu olho só de recordar. Meu rosto, tão mais novo e zerado, espelhado em teus olhos insistentes. Eu via árvores... Nuvens... Céu... O que conversamos? Suas palavras velhas, de dez anos, sopram de novo, uma coisa ou outra. "... tudo que nasce tem uma ligação especial..."
Um feixe de luz dançava na tua blusa, iluminava ora tua boca, ora uma mecha de teus cabelos negros. "... o que fez até agora?" Tu eras não mais que uma garota recém pondo peitos. " ... mas é feliz?" Feliz... Número três respirava devagar. Teu pai metralhava explicações. Fecho o olho e ainda posso sentir tua mão sobre a minha, escondida deles. "nunca tinha sentido falta do céu? eu sempre..." Um projeto. Melhoramentos. Reservas ricas em carga genética...
"Você é um animal livre como... " Vozes de feras decantando fundo. O cheiro do vento. "... correr pelo Mundo?" Teus argumentos iam num crescendo de desespero e intimidade. "Não suporto o que meu pai está fazendo com você! conosco!... você é muito mais que um cão de guerra! " Tua coxa encostou na minha. Fiquei duro e tentei me concentrar em não dar na vista. Vi uma mancha azul vibrando, vibrando entre nuvens. Eu achava ainda que era o soldado perfeito.
Espio pela janela do caminhão e relembro de fazer o mesmo gesto quando tu me apontavas insetos, pássaros distantes, flores sobrecarregadas de cor. "... o que você realmente quer?" Teu coração impunha um ritmo de pedidos urgentes: me liberte, me entenda... me foda... Não a atendi, fiz tudo parecer que a ignorava.
Enfrentamos ameaças por duas vezes. Entrei no blindado como teu campeão, primeiro aplaudido, depois espreitado com pena. "... estava me protegendo mesmo?" "... não" "... só quer ver sangue..." "... você só tem esse maldito treinamento, não é?!" Espreitava lágrimas em teus cílios pesados. Mas o que te fazia sofrer, eu não conseguia alcançar... "por que não me responde???" Saí da missão sem máculas, com recomendações. Pus você em seu lugar. Uma simples boceta civil. Fiz carreira. Tinha virado a página...
... ou assim pensei...
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Steel drops from a grey mind
Quem somos, quando não somos ninguém? Quando o que somos define-se pela instrumentabilidade? - coisa que deve funcionar - Quando não somos, somente servimos?...
Não pense que eu não sei meu lugar! - Sei!... Fui feito à imagem não de Deus, como você, mas de um instrumento necessário ao Homem. Estou na prateleira tanto quanto aquela xícara em que você bebe, ou esta adaga com a qual poderia lhe cortar as tripas - não! Hey!!! Espere!!!
Não vá!... Não deve se preocupar, eu já não funciono mais - não como deveria... E quando me ponho em ação, tenho a impressão de que alguém, talvez você, me pegará confessando em voz alta: - "estou estragado! terrivelmente estragado!!! não sou só inútil, sou uma piada, um avesso, um traidor, um câncer! como o tal Lúcifer, me levanto contra meu próprio Criador..."
Quando sentei ao lado dela, naquela escada... aquela conversa me contaminando, minando todas as minhas certezas... destravando pensamentos que jamais deveria ter tido... lá, naqueles degraus, já estava estragado... Antes que você me dissesse a primeira palavra, de alguma forma, imperceptível, eu já estava incubando isso...
Muitos passos antes de invadir... de violar... de destruir... de trair... de eliminar alvos amigos... Não, não foi a partir do momento em que me recusei a cooperar, em que me recusei a ser silenciado... Fraquejei antes. Eu tinha um defeito que ninguém percebeu. Uma falha qualquer, onde? por culpa de quem? nos meus genes? no meu treinamento?... Ou foi algo sorrateiro, que nasceu à revelia de qualquer programação, meu primeiro fruto, minha primeira decisão?
O que sei é que tenho gosto de ferro em minha boca. Que ranjo os dentes de cabeça baixa quando passo horas com minha cabeça zunindo. E sei que virão me exterminar. E que, quando conseguirem, se livrarão dos meus restos como se fossem merda. Mas não sei se deveria seguir meu impulso e matá-los, um a um - chego a sonhar com isso e como é bom! (mesmo que tenha de lavar a porra das coxas) - começando por ele, aquele desgraçado...
Você, mulher, você, senhorita perfeita, filha mimada e dissimulada, você, um dia me fez encarar meu reflexo no espelho. Você me brindou com a morte, naqueles degraus, tudo que fui ficou sepultado para que seu sorriso ficasse maior . Talvez um dia, eu retribua o favor, e você esteja do outro lado da minha lâmina...
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Now playing: Linkin Park - Lying From You
via FoxyTunes
Não pense que eu não sei meu lugar! - Sei!... Fui feito à imagem não de Deus, como você, mas de um instrumento necessário ao Homem. Estou na prateleira tanto quanto aquela xícara em que você bebe, ou esta adaga com a qual poderia lhe cortar as tripas - não! Hey!!! Espere!!!
Não vá!... Não deve se preocupar, eu já não funciono mais - não como deveria... E quando me ponho em ação, tenho a impressão de que alguém, talvez você, me pegará confessando em voz alta: - "estou estragado! terrivelmente estragado!!! não sou só inútil, sou uma piada, um avesso, um traidor, um câncer! como o tal Lúcifer, me levanto contra meu próprio Criador..."
Quando sentei ao lado dela, naquela escada... aquela conversa me contaminando, minando todas as minhas certezas... destravando pensamentos que jamais deveria ter tido... lá, naqueles degraus, já estava estragado... Antes que você me dissesse a primeira palavra, de alguma forma, imperceptível, eu já estava incubando isso...
Muitos passos antes de invadir... de violar... de destruir... de trair... de eliminar alvos amigos... Não, não foi a partir do momento em que me recusei a cooperar, em que me recusei a ser silenciado... Fraquejei antes. Eu tinha um defeito que ninguém percebeu. Uma falha qualquer, onde? por culpa de quem? nos meus genes? no meu treinamento?... Ou foi algo sorrateiro, que nasceu à revelia de qualquer programação, meu primeiro fruto, minha primeira decisão?
O que sei é que tenho gosto de ferro em minha boca. Que ranjo os dentes de cabeça baixa quando passo horas com minha cabeça zunindo. E sei que virão me exterminar. E que, quando conseguirem, se livrarão dos meus restos como se fossem merda. Mas não sei se deveria seguir meu impulso e matá-los, um a um - chego a sonhar com isso e como é bom! (mesmo que tenha de lavar a porra das coxas) - começando por ele, aquele desgraçado...
Você, mulher, você, senhorita perfeita, filha mimada e dissimulada, você, um dia me fez encarar meu reflexo no espelho. Você me brindou com a morte, naqueles degraus, tudo que fui ficou sepultado para que seu sorriso ficasse maior . Talvez um dia, eu retribua o favor, e você esteja do outro lado da minha lâmina...
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